ARTIGOS


Porto Alegre sitiada

No ano em que se comemoram os 250 anos da capital, é imperioso expor ao público os historiadores e seus escritos que tem enfrentado o senso comum, os mitos, as lendas e as mentiras. Quando se olha para a Província de São Pedro ( Estado Rio Grande do Sul) e para o Porto dos Casais ( Porto Alegre) é preciso ter a coragem de enfrentar as inverdades que se contam por aí, os mitos criados como em torno dos farrapos e dos açorianos.

Um autor que merece nosso respeito de A a Z é Sérgio da Costa Franco. Como todo o estudioso tem seus escorregões, quem não teve nenhum deles que atire a primeira pedra. Ao lado dele, lembro-me do Francisco Riopardense Macedo, da Sandra Jatay Pesavento, da professora Margaret Marchiori Bakos, Charles Monteiro, entre outros.

"Porto Alegre situada", de Sérgio da Costa Franco, é um "livreto" ousado, claro, preciso e mostra o quanto os farrapos castigaram por longos anos nossa cidade, mantendo-a sitiada e explorada. E, contraditoriamente, a estes mesmos "farrapos" se ergueram monumentos e se denominaram logradouros públicos.

Bento Gonçalves passou aqueles anos por tempos em tempos acampado na Vila Setembrina (Viamão) dando cargas contra a capital, noutras vezes o General Netto (Antônio de Souza Netto) o proclamador da República Rio Grandense, David Canabarro.

O antigo Caminho do Mato Grosso deu lugar para a Avenida Bento Gonçalves, na Azenha, perto de onde os farrapos invadiram a capital em 20 de setembro, temos o Monumento a Bento Gonçalves.

O General Netto dá nome a uma rua no Bairro Floresta e o famigerado David Canabarro denomina uma rua do nosso Centro Histórico e uma, pasmem, Escola Estadual na Zona Norte.

E o pior de tudo isso, a façanha da mesmice, do senso comum, da falta total de autocrítica nos leva a comemorar com pompa e circunstância na Estância da Harmonia a Semana (que virou mês) Farroupilha. É claro que é louvável que se coma carne e se coma um bom carreteiro e se festeje em torno destas comidas, mas não vi, não ouvi, não presenciei qualquer debate sobre a tome submetida ao povo residente na Porto Alegre de 1836-40, quando vivemos sitiados.

Porto Alegre recebeu o título de "mui leal e valerosa" do Império, e ouço troças nos dias de hoje, é claro que o nosso autor não faz estas referências, mas ele me proporcionou como vai proporcionar a vocês leitores todos os elementos para uma análise autocrítica da insurreição Farroupilha; pois não foi uma revolução. O povo da capital com algumas exceções (ele cita a senhora Palmeiro, de tradicional família como identificada com o "ideal" dos farrapos) estava com os rebeldes.

A capital tinha poucos soldados e comandantes, só não caiu, só não se rendeu porque a qualquer momento de 1.000 a 2.000 civis se juntavam nos fortes, dos 12 ou 14 pontos de defesa da cidade. Já antes havia o Portão próximo da Santa Casa, fala-se inclusive num ponto na zona norte, de onde teria surgido o nome para Avenida do Forte, mas não há comprovações de que fosse tão distante do centro.

Temos a figura de um civil chamado Francisco Pedro de Abreu, "Chico Pedro ou Moringue" que foi um estrategista, por estas razões foi incorporado às hostes legalistas e chegou a General. Vale citar o nome do Brigadeiro Felipe Nery que dá nome a uma rua na Auxiliadora.

Sérgio da Costa Franco como eu faço aqui questiona a devoção referencial aos rebeldes, como cobra uma análise sem passionalismo frustrada República Rio-Grandense. Temos, na verdade, uma bibliografia parcializada, com honrosas exceções.

A expansão e desenvolvimento da capital ficou travada não só nos 4 anos de sitiamento, mas nos dez anos da insurreição, como o Rio Grande do Sul pagou alto tributo à invasão do Paraguai logo após. Mais ainda quando houve a Guerra Civil de 1893-25 e novamente a luta sangrenta de 1923-24.

Esquecemos quem lutou pela paz, ajudou a capital não ser tomada, estes não são lembrados e quando sai é de forma superficial e marginal. Muito se escreveu sobre Bento Gonçalves, mas quase nada sobre o General Netto, superior a ele nas táticas de guerrilha e guerra. Sabemos quase nada de Moringue, um livro talvez. Já se vez uma análise mais crítica de David Canabarro, mas pelo que lemos de Porongos e de modo especial seu papel no cerco a Porto Alegre ele era um medíocre que levou fama. Por que razões acontecem estas análises históricas até aqui? Netto é de fato uma personagem para lá de contraditório, elogiável na sua posição contra Canabarro no caso de Porongos; mas no caso do cerco da capital ele, com Bento e Canabarro não passaram de medíocres comandantes, com força militar sempre superior aos legalistas tiveram que abandonar o cerco. As desculpas que a História conta são tantas que seria bom duvidar de pelo menos algumas delas.

Que nosso papel de levantar com o estudioso Sérgio da Costa Franco algumas questões sirva para alcançar algumas verdades escondidas e desvendar outras tantas mentiras.

 

 

Adeli Sell, professor e escritor