ARTIGOS


Capitu sou eu

Foi na Faculdade de Letras que me indicaram a leitura dos contos de Dalton Trevisan. Lembro também de um amigo que lera até ali (1974) tudo dele. Era o "boom" dos contistas. Havia aqui o Lourenço Cazarré, o Caio, o Noll e tantos outros. Havia Sérgio SantAnna, Luiz Vilela, Rubem Fonseca e outros tantos pelo país afora.

Por que seria que havia tantos escritores naquele período de ditadura de vozes reprimidas?

Depois nem ele e nem outros eu lera, pois enveredei para outros rumos que não a Literatura. Lastimo tudo isto nos dias de hoje.

Fico pensando num Rubem Fonseca que sabia abrir a alma do mundo violento e da gratuidade dela, uma espécie de maldade da violência. Agora, volto à leitura daqueles contistas e vejo que Dalton Trevisan sempre foi maestro em tudo o que produziu. Alguns podem se queixar da recorrente temática do sexo, das perversões e frustrações humanas. Mas é só abrir as portas da sociedade e não ter medo para ver o que ela esconde que vamos ver que o Dalton Trevisan não escreve ficção científica.

E tudo se passa em Curitiba. Poderia ser Porto Alegre, não mudaria. Mas é lá que ele nasceu em 1925 e ainda está vivo (2022). Arredio, não dá entrevistas, não se deixa fotografar.  Ele escreve e quase sempre os livros saem pela Record.

O locus Curitiba aparece muito e ele não poupa a sua cidade. Abre as tampas dos bueiros, deixa o fedor exalar, fala que viaja por uma Curitiba que não é aquela para inglês ver, como diz no livro Revisitando Curitiba.

CAPITU SOU EU: 21 contos em 111 páginas. Contos curtos, apesar de nunca ter escrito contos muito longos, seja lá Vampiro de Curitiba, A Faca no coração, Novelas nada exemplares e tantos e tantos outros.

Não importa se o autor se esconde; ela não esconde nada, mostra a alma das pessoas, não são personagens que vemos, são seres humanos quase sempre sofridos, amargurados, mulheres vítimas de estupro, da violência masculina; como temos momentos de prazer e que prazer com o sexo de todos os modos. Digamos assim: toda forma de sexo vale a pena, Cantares de Sulamita, nesta Capitu sou eu, é o modelo exemplar.

O autor abre este livro com o conto "Capitu sou eu", para falar da professora carente de amor, depois de enviuvar, e fazer o "melhor do sexo" com um aluno mais para brucutu que para galã.

Aqui, os dramas, portanto de traição não são como em Machado, pode ser, pode não ser, aqui são reais, acontecem; sendo que os traídos ou os que pensam ter sido traído são violentos. Aqui, não tem Bentinho.

Já nalgumas reflexões sobre A Faca no Peito sugeri nas redes sociais um debate sobre a obra do mestre do conto: Dalton Trevisan.

Eis que a Coordenação de Humanidades e do Livro da Prefeitura de Porto Alegre, através do professor Sérgius Gonzaga, chama para o dia 04.02.2022 uma LIVE comigo, ele e o Pedro Gonzaga, um jovem e ousado poeta local, grande leitor de Trevisan.

Ao comentar um livro de contos do gaúcho Luiz Filipe Varella de Um guarda-sol na noite disse:

“Pensei também nos escritos de Dalton Trevisan – quem eu já tinha quase esquecido – com suas pitadas de sensualidade, chegando à luxúria ou até mesmo à perversão, pelo sexo reprimido.”

Em Porto Alegre me parece que ainda está por vir um contista que foque na sua cidade, como Dalton Trevisan.

Ainda voltarei ao tema.