ARTIGOS


Anotações acerca de Dalton Trevisan

Dei uma passada de olhos na Estante de Literatura Brasileira e peguei meio aleatoriamente “A faca no coração” de Dalton Trevisan. Lembrei-me de Novelas nada exemplares; O vampiro de Curitiba, Cemitério de Elefantes. Antes de abri-lo me perguntei o que acharia dele hoje em dia, pois na década de 70 como estudante havia me encantado com a secura dos seus textos, pelo tratamento de temas que nos horripilavam.

Ao final do primeiro conto – Paixão de Palhaço – está ali por inteiro e atual, o autor que me tomava a atenção há quase 50 anos atrás.

Estava ali com a recorrente personagem João, a maldade da alma humana, as perversões e as manias que as pessoas tem e escondem.

Noutro, Maria entre João e André, há a perversão pura, o estupro de vulnerável e as mazelas que a vida sempre tenta esconder.

Ao ler conto a conto deste A faca no coração volto a outros livros seus como se a cada um deles ele levantasse o tapete e mostrasse o que as famílias, as pessoas, a sociedade varre para debaixo dele.

Sempre é como se a gente entrasse num quarto escuro, apertasse a botão da luz e tudo que não via se descortina à nossa frente, na crueza de palavras secas, substantivas. Se há algum adjetivo é porque ele não pode faltar para elucidar.

Em 2022 ele fará 97 anos.

Nada ou quase nada se sabe dele. Sempre foi avesso por aparecer.

Só sabemos que já recebeu 4 prêmios Jabuti e outros tantos.

Só sabemos que vale a pena ler Dalton Trevisan.

Tenho a convicção que passando os tempos Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Nelson Rodrigues vão arrancar da mente dos leitores o que penso agora: clássicos e eternos.


TREVISAN. Dalton. A faca no coração.2ª, ed, revista. Rio de janeiro: Record, 1979.

 

 

Adeli Sell, professor e escritor