ARTIGOS


Memórias do general Zeca Netto

Neste livro Zeca Netto narra acontecimentos do quais participou de 1898 a 1936, em especial na Guerra Civil de 1893-95 do lado dos castilhistas, contra os federalistas, conquanto em 1923 passa à oposição a Borges e os castilhistas, formando com Honório Lemes e Assis Brasil a luta contra a ditadura borgista.

            Zeca Netto é consciente de que o tempo fulmina com as coisas. Tudo que é sólido desmancha no ar, pois se desejo é fornecer dados para que, no futuro, as pessoas “possam ajuizar o estado social dessa época e o caráter dos nossos políticos, com os quais tive contato como pequeno auxiliar e sem outra ambição senão aquele de vem servir ao meu país”.

            E creio nisto, pois os seus relatos são claros, precisos, sem mostrar em nenhum momento algum laivo individualista, ególatra ou de autoritarismo.

            Ao final ele explica como “entrou na política” sem nunc ter tido ou querido cargos, sempre como civil, organizador de grandes peleias, por sua crença na república e na democracia.

            Uma conclusão que chega é que a República se fez mais pela fraqueza dos defensores da democracia do que pela força dos republicanos.

            Também ao final menciona figuras de proa de nossa politica mesmo daqueles de quem divergiu profundamente.

            Aprendemos também um pouco sobre sua formação intelectual, passando pelo Colégio Gomes em Porto Alegre e seus estudos no Rio de Janeiro como ficamos sabendo de sua preocupação com a educação formal dos filhos.

            Era muito franco, sem meias palavras, como se vê na questão da escolha de candidato a prefeito em Camaquã, este não, por isso ou aquilo ou quando não aceita que Borges se retire e deixe o governo na mão de Protásio, pois este seria um fantoche nas mãos daquele.

            Trata sempre seus subordinados com respeito, nunca maltratou um preso, na maior parte das vezes, retirando armas e mandando tomar seu rumo.

            Sem ter qualquer formação militar, era um homem de grande conhecimento tático, com uma tática de guerra de guerrilhas sem igual. Isto me fez pensar no seu tio, o General Netto, do qual faz uma chacota por ter perdido uma batalha porque estava a bailar.

            É um livro que põe por terra vários mitos, lendas e mentiras da História rio-grandense.

            Fica evidenciado o quanto Júlio de Castilhos - a quem esteve sob comando na Guerra de 1893-5 – era diferente de Zeca Netto. Júlio era um preponente e autoritário governante.

            Fica evidenciado também o quanto os policiais e militares em grande número eram também autoritários, mesquinhos, de pequenez ética, comparada com o próprio Netto. Deles divergiu muitas vezes e a eles na peleia de 1923-14 fez duros combates.

            Mas mesmo assim, mesmo sabendo quem eram, nunca exorbitou de suas posições nem os achincalhou, apenas os desprezava. Com toda a razão.

            Por isso, considero fundamental para conhecer a História de um povo, de uma Nação, das guerras os relatos memorialistas.

            Zeca Netto com estas suas Memórias nos dá uma aula que temos que falar dos nossos tempos, das pessoas, do quadro econômico e social, bem como dos governantes

 

 

Adeli Sell, professor e escritor.