ARTIGOS


O amante alemão

(Prêmio Açorianos de Literatura de 2013)

 

Lançado em 2014 pelo Instituto Estadual do Livro sob direção da jornalista e escritora Laís Chaffe e pela PUC, o romance de Lélia Almeida é de um texto e enredo sedutores; com uma apurada e inovadora técnica narrativa.

            O fio condutor é a história de Duzília Flores e Johan Hermann, o amante alemão, e sua esposa Brigitta.

            Duzília que é jornalista vai morar em Santaluz para trabalhar numa ONG de colonos alemães. Com desenvoltura Lélia Almeida nos leva para o seio de uma comunidade fechada, com seus mistérios, das coisas sabidas, porém não contadas e sempre escondidas.

            Ficamos sabendo das denúncias do uso desenfreado de venenos, possível elemento indutor de mortes por enforcamentos.

            A jovem menina que a mãe manda o Instrutor ensinar piano se joga enforcada num poço para nunca ter o sangue daquele monstro circulando nas veias de mais ninguém. Tem a morte do fotógrafo que registro o que não se vê e se finge que não se vê. Os mesmos assassinos praticam um bárbaro estupro. Era um sinal, um aviso de que certas coisas não podem aparecer, e o medo volta com tudo. Tanto que Duzília segue conselhos e sai daquele lugar: Santaluz.

            O título é que chama a atenção neste mundo de "amantes latinos", cria um ambiente, um clima. E ele é o amante tipo alemão, quando está por aqui a trabalho encontra uma pessoa que quer viver, amar, sente falta dele, sabe conduzir as rédeas da trama. Indo embora, ele se junta a sua mulher que o espera. Tanto é assim que a autora abre diálogos com a esposa do amante, Brigitta, que está longe, mas que acaba ficando tão perto, tão junto a Duzília que, instigada pela amante do marido, vai buscar também o seu vier, o amar com um amante espanhol, Osmel.

            Este recurso é muito bem feito, soa normal, nada é forçado na trama. Tanto que é assim que ela pode realizar um grande final sem arrebatamentos, com conhecimento interior das personagens. Após a sua última viagem, na véspera do Natal, o casal alemão parte para a casa paterna de Johan e as estradas estão trancadas, tem neve, faz frio, e para saber das melhoras do clima, se obrigam a escutar um programa de um mexicano para lá de brega, onde pessoas ligam a contam suas vivências amorosas, e ele vai falando do clima, das estradas trancadas, libres etc.

            Osmel fala e diz que encontrou sua Loreley, Duzília fala do seu Servo, como a Madame do amante alemão. O programa vai e o casal alemão não fala, só sente, vivencia o que é narrado; quando ao final as estradas se abrem e podem seguir viagem.

            Mas o mais impactante é o sucesso do romance que é traduzido e tem lançamentos internacionais.

            Brigitta ganhou o livro da filha mais velha e vão ela e o marido pegar seu autógrafo. E as duas se deparam cada qual com seu pingente um virado para a esquerda e o outro para a direita, se encontrando, na foto dos três.

            Da mesma forma que Lélia Almeida tem domínio da narrativa longa como neste romance, nos textos curtos é concisa, econômica, sendo que cada frase aqui como em outros escritos estão carregados da força e da busca de libertação das mulheres, cujo tema ela domina de A Z.

 

 

Adeli Sell, professor e escritor