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A difícil convivência: Porto Alegre o os Farrapos

Quando nossa capital comemora 250 anos é necessário revisitar o tema do cerco dos farrapos.

Poucos tem falado do tema. Felizmente, Sérgio da Costa Franco trata o episódio com visão crítica em seu "Porto Alegre sitiada", de 2011. Walter Galvani enfrenta a questão em 2013, com o seu A DIFÍCIL CONVIVÊNCIA - PORTO ALEGRE E OS FARRAPOS.

A capital tornou- se famosa por seu Acampamento Farroupilha que foi iniciado no final dos anos 80, no Parque da Harmonia, oficialmente Parque Maurício Sirotski Sobrinho. Era para ser uma semana pelo dia 20 de setembro, data em que os farrapos tomaram nossa capital de assalto, vindos de Pedras Brancas (Guaíba) pelo rio/lago. A semana virou mês. Em 1947 havia surgido o CTG 35 e o início do Movimento Tradicionalista Gaúcho.  Mas o mito do gaúcho, do valente e insubmisso farrapo vem de antes, vem como fala Galvani dos festejos do Centenário da Guerra Farroupilha, em 1935 nos campos da Redenção, que daí vira Parque Farroupilha. Era um momento em que Porto Alegre vira a capital de todos os gaúchos e isto vem se repetindo até hoje.

Mesmo antes nosso Palácio em 1921 é o Piratini da Duque.

O general Souza Doca que veio representar o governo federal de Getúlio Vargas fez um discurso para justificar a união do povo em torno do mito, pois afinal somos todos farroupilhas. Foi uma construção política e ideológica, porque a capital fora avessa aos farrapos, mesmo depois de 1845.

Quem invadiu a capital foi gente da campanha que tinha suas justificativas. tanto que a capital permaneceu legalista.

Onofre Pires e Gomes Jardim enfrentam um pelotão imperial na Ponte da Azenha e por 9 meses tomam o poder local, sob comando de Bento Gonçalves, não dando posse ao Dr. José de Araújo Ribeiro, hoje nome de uma Travessa no Centro Histórico. Porém, tempos depois o General Bento Manuel Ribeiro passa para o lado dos imperiais, Bento e farrapos saem da capital; Bento é derrotado em Triunfo e preso.

Walter Galvani, diferentemente de Sérgio da Costa Franco, não trata do papel essencial de Chico Pedro que vem das hostes civis para ajudar na defesa da capital. Há um livro de José Iran Ribeiro, pela Oikos, que trata desta personagem ímpar. É apenas uma constatação.

Mas Walter trata de outros legalistas como o General João Manoel Menna Barreto que também dá nome de rua do Centro da capital, via que atravessa a Rua Duque de Caxias.  Como do farrapo João Manoel de Lima e Silva, este farrapo, tio do Duque de Caxias, legalista.

Galvani fala das dificuldades do cerco, com alguns detalhes importantes, que poucos sabem e historiadores não lembram: falta de mantimentos que tivemos no cerco dos farrapos por quatro anos, nos quais os quatro generais Bento, General Netto, Canabarro e João Antônio da Silveira, este pouco lembrado, mas dá nome à principal via do Bairro Restinga, mais Garibaldi fizeram várias tentativas de ganhar a capital e não foram vitoriosos, porque o povo se postou ao lado dos poucos soldados legalistas nas trincheiras.

Walter Galvani fala do título de "mui leal e valorosa" capital dado pelo Imperador.

E um dos capítulos importantes do livro é quando trata da destruição da chamada Casa Branca, QG dos Farrapos, no encontro das atuais Avenida Antônio de Carvalho e Avenida Protásio Alves. Desanca e qualifica como criminoso o ato praticado pelo ucraniano naturalizado brasileiro Marcos Rubin. Havia decreto de Telmo Thompson Flores, o prefeito, considerando esta casa patrimônio cultural. Galvani dá dados, notícias de jornal, traz fotos, num libelo pela defesa da História, da Cultura e de nosso Patrimônio.

Um livro para se ler de tacada e se guardar, como é o de Sérgio da Costa Franco.

Faltam mais estudos para revisitar não só a Guerra dos Farrapos, mas os desdobramentos acerca do que ficou, as permanentes dissenções entre o povo gaúcho; perseguições políticas inclementes de tempos em tempos, a Guerra Civil de 1893-95, a de 1923-25, a Legalidade dos anos 60; as disputas entre farrapos e caramurus, entre maragatos e chimangos, como a nossa eterna grenalização na política.

 

Adeli Sell, professor e escritor