ARTIGOS


Peregrina de araque

Segundo a capa, a autora diz que foi “uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio”.

Maria Kalil, falecida aos 47 anos de idade, foi uma jornalista que cheguei a acompanhar por vezes em suas colunas em Zero Hora e em especial no Caderno Donna. Já a achava bem humorada, bom astral, sincera e por vezes irônica.

Aqui, cai em minhas mãos por indicação de um amigo este “Peregrina de Araque”, exatos dois anos após sua partida.

Encontro uma escritora ousada, simples, mas profunda, mais do que irônica, com grande domínio sobre situações inusitadas e saídas de texto e linguagem muito animadoras para ler.

Mariana Kalil conta sua viagem acompanhando por 15 dias um grupo de peregrinos, com um padre e um frei.

A autora explora as atitudes das pessoas, relata como são ou parecem ser, seres que às vezes surgem mutantes e ela muda de opinião ao aprofundar algum laço.

Com sinceridade total, Mariana relata sua relação com as crenças religiosas, faz análise do que aprendera nas aulas de catequese, no Bom Conselho, vê como outros aprenderam a mesma coisa, tem empatia com as análises do padre sobre fatos e relatos bíblicos, pois ela e outra peregrina tem a mesma visão crítica, de não ler a Bíblia ipsis literis.

Momentos intensos, fatos gasosos, outros duros, passagens com muito humor dos quais a autora tira proveito.

Como a autora é de descendência “árabe”, ela narra dois momentos tensos ao atravessar as fronteiras por causa de sua condição de “palestina”. Estes são momentos de “quebra” digamos assim, onde Mariana acaba sabendo explorar a divisão do mundo, o ódio religioso, étnico, cultural. Por sinal, com leveza e sabedoria, ela tira tudo de letra depois de ficar esperando mais de quatro horas para ser liberada numa das passagens. Depois descobre que a policial israelense era uma baiana.

Leiam. Não deixem de ler. São 143 páginas com capítulos do seu dia a dia da ida até a volta a Porto Alegre.

Vale a pena. É uma edição da Editora Dublinense.

 

 

Adeli Sell, professor e escritor