ARTIGOS


O fundo escuro da hora

As abstrações são fundamentais em resenhas, comentários e opiniões. Se já é fundamental desvincular os escritos da biografia do autor, mais difícil é “não ter presente” o autor quando se é amigo, conhecido há muito tempo da pessoa.

Todos que leem o Vitor Biasoli sempre falam da qualidade de seus contos e poemas. E é disto que vou falar.

Em dezembro de 2018, depois de anos de não nos encontrarmos, almoçamos no Centro Histórico de Porto Alegre, quando me alcançou seu recém lançado "O Fundo Escuro da Hora", da Chiado Books.

Lembramos os tempos da UFRGS, ele cursando História, eu fazia Letras. Tínhamos um Grupo de Estudos que começou lendo e debatendo Umberto Eco. Falamos de tudo um pouco, colocando conversas em dia.

Vivia eu ainda em volta com muita militância política, deixei o livro de lado, esqueci, vejam só, apenas agora que o peguei e li, li, li até acabar.

Vitor é um homem de História e de histórias, com grande domínio de linguagem. Em breve, falarei de seus poemas.

O autor percorre um pouco de seu percurso pessoal: Pelotas onde nasceu, Porto Alegre onde estudou e Santa Maria onde lecionou.

Suas personagens vão nesse vai e vem, uma boa escolha, pois as paisagens, as coisas, as ruas, tudo soa muito natural, real.

Vitor nascido em 1955 e eu em 1953 já somos velhos que tem lembranças, memórias, vivências que ajudam a compor seja um livro de memórias seja de literatura. Vitor optou pela Literatura. Fez bem, e não se esquece de mesclar em vários momentos seus conhecimentos de nossa História, aí tudo surge natural, como a Guerra Civil de 1893, a de 1923, a II Guerra, a ditadura militar, muito bem explorada no conto que dá nome ao livro.

Como disse, as pessoas quando chegam a certa idade não tem como fugir do drama intergeracional, temas recorrente em vários contos, seja na personagem mais velha com alguma jovem lhe fazendo a cabeça e o coração a partir de um sexo livre, não convencional, com a pele sedosa, o jeito, o charme que só a juventude pode proporcionar. Foi uma boa escolha estética.

Em alguns momentos seus contos me fizeram lembrar os bons contistas dos anos 70 e 80, com histórias densas de vivências humanas, como o drama do casamento, dos filhos, das traições, impactando-nos como quando a mulher é capaz de fazer o que os homens tomam como natural para si, sair transar para transar, viver a vida. E ponto.

A manipulação está presente não apenas no conto em que Ana Carolina induz o jovem e tosco Giovani a se vingar da mãe dela por supostamente ter ajudado na morte do pai. Em outros aparece o jogo dos sextos, das pessoas, dos interesses, do velho sobre o jovem.

Se o tema do sexo entre homem e mulher é recorrente, há pelo menos dois contos que tocam no tema do homossexualismo e da repressão aos desejos, vontades dos personagens homens não realizados, com certo mal estar de espírito e com dúvidas a tremer em suas mentes.

Seja escrevendo na primeira pessoa, ou levando a escrita para a terceira pessoa, Vitor se desincumbe bem do processo. Outra narrativa que aparece é a carta, a que escreve à madrecita é quase um panorama que junta elementos da vida do autor, dos amigos, das pessoas de nossa geração. Uma geração que viveu como poucas outras. Olhando retrospectivamente até hoje foi aquela que mais viveu intensamente e olhando para aquela dos filhos e netos, com certeza estas são uma pálida repetição de nossas vivências, como a das personagens dos contos de Vitor Biasoli.

 

 

Adeli Sell, professor, escritor e consultor