ARTIGOS


Dicionário ilustrado da esquerda gaúcha

A tradição é que Dicionário não se lê, a gente consulta verbetes. Mas confesso que li item a item, fazendo logo anotações. Sei que muitas vezes ainda voltarei a vários verbetes.

Pois a obra do pesquisador - conhecido por ter um arquivo inigualável sobre o movimento operário, a vida de sindicalistas, comunistas, anarquistas, negros - João Batista Marçal e Mariângela Martins é uma obra que nos atrai quando se veem nomes conhecidos e outros tantos que queremos saber quem foram.

Os autores trazem dados de 231 biografados, onde vimos comunistas, anarquistas, trabalhistas, socialistas, enfim, gente de esquerda e com uma vida de combates pelo povo.

Impossível falar de tudo e de todos, por isso escolhemos alguns elementos que nos chamam a atenção como o caso do resgate de tantas mulheres valorosas.

No Prefácio, o professor Benito Bisso Schmidt nos fala que instou Mariângela Martins a procurar o jornalista e escritor João Batista Marçal e disto surge este livro lapidar, de um valor inestimável para saber de muitas verdades e enterrar vários mitos e lendas de nosso estado.

Os autores põem à luz dados de pessoas que sempre foram escondidas, ou seja, se escondia ou seu lado político (Álvaro Moreyra, Marcelo Gama) ou se escondia sua vida intelectual (Lila Ripoll).

MULHERES

Marçal e Mariângela nos mostram o quanto as mulheres tiveram papel importante nas lutas sociais. Muitas eram anarquistas, mais do que se possa imaginar, muitas comunistas e muito avançadas para o seu tempo.

Falando de algumas mulheres fiquei sabendo mais de companheiras com quem convivi como o caso da costureira Avani Keller, da Sonia Venâncio Cruz, entre outras.

A exposição de boas fotos são outra marca do livro e uma foto das cinco irmãs Martins, todas anarquistas como o pai, é elucidativa. E a nota sobre a jovem Espertina, seu buquê de flores, em passeata que escondia bomba para o enfrentamento da repressão, é para nunca se esquecer.

Ficamos sabendo a posição de Lara de Lemos, autora do Hino da Legalidade, como sua atividade cultural, como poeta.

Desnuda que Lila Ripoll não foi apenas aquela comunista que se lê quando se fala dela, mas a magnífica intelectual e poeta que ela foi.

Outra nota que faço questão de citar é sobre a trajetória da pioneira do ensino laico do país, Malvina Tavares.

São muitas outras que aqui encontramos e ficamos até tocados quando descobrimos que várias professoras e dirigentes sindicais que se tornaram conhecidas da categoria eram de origem e de ideias socialistas ou trabalhistas, como Thereza Noronha, Valdeci Bezerra e Zilah Totta.

Resgata a esquecida e brilhante poeta, Beatriz Bandeira, casada com Raul Ryff, outra figura combativa lembrada.

O dicionário nos lembra que foi a primeira deputada mulher na Assembleia Suely Gomes de Oliveira a autora de importantes leis, entre elas dos 25 anos para professores se aposentarem.

POETAS QUE ESCONDERAM DE NÓS SER DE ESQUERDA

Poucos sabem quem foi o poeta Marcelo Gama, muito menos que era pseudônimo de Possidônio Cezimbra Machado. Ele é nome de rua no Bairro São João, em Porto Alegre. Muito menos sabíamos que era um combativo jornalista e anarquista de cruz na testa. Foi um grande intelectual.

Da mesma forma nunca se fala de sua posição de esquerda para um dos nossos maiores cronistas, Álvaro Moreyra, que dá nome a uma sala do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre.

MARAGATOS E COMUNISTAS

Aprendi que tem muita lenda acerca dos maragatos. Nunca acreditei que fossem um bando de latifundiários e monarquistas. Aqui, leio que Emílio Lopes Filho, Eduardo Barreiro, Hermenengildo de Assis Brasil, Ulysses Villar e Pedro Ximenez foram maragatos e comunistas dos quatro costados.

QUEM DIRIA

Nunca havia lido que nosso Salgado Filho que dá nome a uma das principais ruas do Centro Histórico de Porto Alegre fosse um trabalhista da forma como aqui conhecemos.

UM NEGRO EM PARIS

Havia escrito há tempos por ter descoberto um pouco da trajetória de pintor Wilson Tibério. Mas agora descubro seu lado revolucionário no campo social.

FILHOS “MAROTOS”

Descobrimos que José Bonifácio Flores da era filho do General Flores da Cunha. Médico, psiquiatra e comunista. E sempre escondido do povo que Reinaldo Frederico Geyer, filho de um dos fundadores da Casa Masson, fora um grande anarquista. Foi o inventor do crediário no Brasil para a própria Casa Masson. Internado pela família como louco, morreu abandonado.

MORTOS PELA REPRESSÃO

Há vários (as) entre os 231 biografados (as), mas vamos aqui lembrar Waldemar Ripoll, primo e irmão de criação de Lila. Advogado, morto a machadadas em Rivera, da mesma forma foi a emboscada armada para seu amigo Apparício Cora de Almeida, também jovem advogado, morto com um tiro como se fosse um suicídio. E a morte do combativo médico Mário Couto, fuzilado num dia de embates em plena João Pessoa.

Estes três assassinatos de jovens militantes ligados a ANL são debitados à polícia repressora do governador General Flores da Cunha. Vimos aqui que ele teve um filho comunista.

MUITO MAIS

Este Dicionário tem muito, muito mais. Os itens, verbete, são claros, precisos. Nada sobra.

É um livro para ter bem guardado, podendo ser consultado de quando em quando e utilizado como tenho feito para combater mitos e lendas, Fake News antigas repetidas aqui por historiadores, memorialistas e é claro na mídia tradicional.


MARÇAL, João Batista, MARTINS, Mariângela. Dicionário Ilustrado da Esquerda Gaúcha. Porto Alegre: Palmarinca/Evangraf, 2008.