ARTIGOS


Estatutária e ideologia

Em boa hora a Editora da Cidade (ligada à Prefeitura) e a Editora Letra & Vida republicaram este livro de Arnoldo Doberstein.

Já havia sido editada em 1992. Estamos diante de uma 2ª. edição revisada e ampliada de 2011.

Arnoldo Walter Doberstein trata de Porto Alegre de 1900-1920, dando destaque ao Quadriênio Glorioso (1910-1914) com as obras públicas da Biblioteca, Correios, Palácio Piratini, Delegacia Fiscal (atual Margs). São do mesmo quadriênio a Previdência do Sul (atual Banco Safra), Cervejaria Bopp (atual Shopping Total) e a Confeitaria Rocco (atualmente, 2022, fechada), portanto obras de capitalistas de então.

Falo de capitalistas, pois tem uma excelente discussão havida entre a classificação de capitalistas, pessoas com visão mais avançada e a crítica aos homens com muito dinheiro, obtusos, que aplicavam recursos em construções sempre iguais, sem qualquer preocupação estética para locar, para auferir lucros e nada mais.

Doberstein vai a fundo na análise da Ideologia e como esta teve um papel sobre os prédios sejam públicos como privados, a estatuária e o fachadismo.

Doberstein disseca o edifício da Prefeitura da gestão José Montaury mostrando todos os aspectos da ideologia positivista nele, logo após a vitória do Partido Republicano Riograndense na Guerra Civil de 1893-95, com a sensibilidade para analisar e apanhar seja neste como noutros casos mudança estética por razões de ordem local, econômica e até devido aos autores, sejam os arquitetos ou os escultores.

Assim é feito com os quatro prédios do quadriênio citado, um a um. Nota diferenças do prédio da Prefeitura com os Correios, por exemplo, sem deixar de mostrar que reina sempre o positivismo.

Quando fala da Biblioteca Pública vemos sendo dissecado o fachadismo, mostrando clara e inequivocamente o calendário comtiano ali exposto.

Ao tratar da Delegacia Fiscal (Margs) ficamos sabendo como o castilhismo/borgismo apesar do discurso moralista buscou benesses junto ao governo Hermes da Fonseca, apoiado pelo PRR. Graças à indicação do gaúcho Rivadávia Correia.Tanto vale para este prédio que seria um simples galpão para virar um dos mais eloquentes da cidade, o mesmo vinha se dando com aquele dos Correios, cujo presidente era o irmão do então governador. Na mesma linha ficamos sabendo como estes dois tiveram seus preços aumentados imensamente nas mãos dos adeptos dessa ideologia.

Ao analisar o Palácio Piratini já percebe alguns elementos de mudança, e lista elementos para tal, objetos trazidos da França, mudança de arquiteto, vários escultores etc.

No capitulo 2, Doberstein vai nos mostrar o positivismo nos monumentos e túmulos, Com sua descrição do túmulo do caudilho dos caudilhos, assassinado quando senador, Pinheiro Machado, impossível não querer ir visitar, quem ainda não foi lá.

A descrição do monumento ao monarquista Barão do Rio Branco que servia à pátria não à república, como ele dizia, mas para os castilhistas isto significava que pátria era igual à República, a deles, autoritária, centralizadora, que pouco importava o Parlamento, nada os opositores, bem o povo, o povo seria sempre mais e mais governado pelos mortos.

Por isso, o monumento a Júlio de Castilhos. Obra de Décio Villares: mais leve para os padrões positivistas, mas ali datas, figuras, tudo era uma louvação ao grande líder morto e que continuava com seus seguidores mandando no Rio Grande do Sul, nem que fosse com eleições fraudadas.

Já ao analisar as obras civis como a Confeitaria Rocco, a Cervejaria Bopp, a Previdência do Sul, o autor nota mais liberdade no trato do fachadismo e vamos entender as razões em suas Considerações Finais.

Importante neste livro que o autor mostra o processo econômico em curso no Rio Grande do Sul nos últimos 50 anos do século XIX para as mudanças advindas para o início do século XX, em especial chegada de 1910. De um Rio Grande do Sul plasmado pela economia da Campanha, passa a receber os imigrantes, começa outra colonização, vem o período das estradas de ferro, muito bem apanhado este tema pelo autor, dando uma nova cara ao desenvolvimento local.

Nasce uma nova burguesia, que ganha muito com o comércio, especialmente por dominar a importação. Isto cria uma nova dinâmica, por isso a explosão de centenas de construções, ricas edificações públicas e também privadas.

Não é mais apenas o endinheirado que faz casas para alugar e ganhar e ganhar, sem qualquer preocupação com estilo e estética, mas os capitalistas que fazem edificações portentosas com rico fachadismo para mostrar grandeza, riqueza, bom gosto, tentando atrair consumidores.

Doberstein também desmistifica vários mitos e lendas acerca das pessoas e do positivismo. Cito aqui a ideia monumentosa dada ao engenheiro Rodolfo Ahrons como sendo este período de muitas construções como Época do dr. Ahrons. Ahrons começou na construção de estradas quando voltou de estudos da Alemanha, ele era nascido aqui. Teve uma empresa de engenharia importante, mas diversificou suas atividades, vindo a ser um grande capitalista no comércio, com empresa de seguros e plantação de arroz.

O autor também dá uma boa descrição dos arquitetos, engenheiros, escultores envolvidos. Vale a pena ler e anotar o que cada um deles fez, pois quando se for dar uma olhada para cima vamos não só conhecer a beleza do nosso fachadismo, como vamos poder apreciar mais e melhor monumentos e túmulos.

Doberstein foge da reiterada visão de uma arquitetura neoclássica e ponto final. Mostra seus elementos recorrentes, mas conclui pelo “historicismo multi-industriado transalegórico”. É um capítulo mais teórico, de grande interesse para estudiosos atentos e que fogem da repetição.

Vale a leitura ponto a ponto, pois é um poço sem fim de informações, com destaque especial á sua conclusão que reproduzo, pois ali o autor resume tudo de forma cabal:

Disso tudo conclui-se que o positivismo gaúcho, no campo da estatutária fachadista e monumental não leva uma estética tão rígida e inflexível como nos métodos para conquistar e assegurar o poder. Evidencia-se também que, quando se pretende trabalhar no campo das ideologias, convém não esquecer que estas, em contato com o dinamismo da realidade concreta, não conservam a rigidez e a imutabilidade que esperam delas aqueles que, por comodismo ou despreparo, escolhem por ver a história enquadrada em formulismo (sic) teóricos simplificadores.”

No momento em que se comemoram seus 250 anos, é necessário revisitar nosso urbanismo, nossa arquitetura, para poder pensar a Porto Alegre dos próximos 250 anos.

Este livro é uma boa contribuição ao debate.


 

Adeli Sell, professor e escritor