ARTIGOS


Antonio Chimango

(A sátira de Ramiro Barcelos desnuca Borges de Medeiros)

Poemeto campestre por Amaro Juvenal”, diz a capa da 2ª. edição de 1915. Li a edição da Artes e Ofícios de 2000 com claras e precisas notas do Professor Luís Augusto Fischer.

Ramiro Barcelos usava o pseudônimo de Amara Juvenal em vários de seus escritos, sendo óbvia a utilização nesta obra, pois atacava frontalmente o ditador positivista do momento, Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, que governou o Estado por 25 anos, com interregno apenas do governo de Carlos Barbosa.

Borges que fora o escolhido de Júlio Prates de Castilhos que aqui aparece como Coronel Pratas, estancieiro, que escolhe o mirrado Antônio Chimango para seu capataz.

Não só Júlio de Castilhos é retratado, apesar de aqui até com condescendência e certo respeito, mas é cruel, destruidor com a figura de Borges, como também com o senador Pinheiro Machado, chamando-o de Turuna.

Vamos lembrar que Ramiro Barcelos era primo de Borges, médico formado no Rio de Janeiro. Desempenhou vários cargos no Executivo e foi deputado provincial várias vezes, Ministro plenipotenciário no Uruguai e Secretário da Fazenda. Responsável e em 1902 criou a moeda o Cruzeiro. que só veio a ser adotada na década de 1940.

Aqui, com Antônio Chimango – poemeto campeiro – temos como lemos na contracapa da edição citada, um “clássico da sátira brasileira, poemeto narrativo de grande alcance no diagnóstico do universo mental gaúcho”.

É isto exatamente, e não foi fortuito a escolha do narrador, o velho, vivido e sabido Eleutério que conta a vida do feioso Borges de Medeiros. A forma e a linguagem usadas em especial do nascimento ao momento em que recebe o poder do coronel é algo forte, duro, cáustico.

É no todo um exercício demonstrativo da filosofia, agora uma religião, segundo Ramiro, o Positivismo castilhista/borgista. É um brado contra a ditadura, a politicagem, os conluios, as eleições fraudadas.

É muito prazeroso de ser lido o poemeto, mesmo com um linguajar não muito comum á juventude de hoje, mas com um olhar nas notas do professor Fischer tudo de resolve e leva sem dúvida oi leitor não afeito a este linguagem a bons momentos de riso.

Tem um grande valor histórico e literário até os dias de hoje. Mesmo sendo datado como uma resposta política, ou como sabemos, fruto de uma tremenda raiva do autor contra o retratado, as figuras são universais, existem, são caricatas como muitas que vemos na polícia atual.

Podemos dizer que ele retratando o universo mental gaúcho é de certa forma também o retrato da escumalha atual.



Adeli Sell, professor e escritor