ARTIGOS


A cor da esperança

É a primeira ficção de Renato Dornelles, tarimbado repórter policial, de quem já resenhei “Falange Gaúcha”.

Por usa extensa experiência de cobertura do mundo do crime, por sempre ter estado ligado às comunidades e em especial ao samba, Renato conhece cada palmo da nossa periferia.

Escolheu a Restinga, em especial a Vila Bonança, para ali condensa o grosso de sua narrativa que como bom livro policial faz o leitor não desgrudar da leitura palpitante.

O perigo na literatura policial é criar um mundo idealizado, com personagens pouco verossímeis, caricatas que não colam com o mundo e a vida como ela é.

Renato Dornelles cria personagens reais, como a Vovó Esperança, explicando de onde veio o nome, da rua onde nasceu na Colônia Africana.

Ela é matriarca como muitas negras, mulheres pretas são e foram ao longo dos anos para suas famílias pela sua força, determinação e caráter.

O mote é que ela e sua família não querem ninguém metido no crime e em especial no crime de tráfico. Mas o comércio das drogas não pede licença a ninguém e não teme e vai se instalando onde parece que posso dar retorno, grana fácil.

Foi o que aconteceu ali no seu entorno.

Mesmo não buscando reproduzir a linguagem das periferias como faz com maestria José Faleiro, por exemplo, Dornelles não usa uma linguagem fora do padrão local.

O caleidoscópio familiar montado também é real. Tem aquela moça que consegue fazer duas faculdades, a outra que espantada com o preconceito está pronta a largar tudo e lá vem a tia e a matriarca para dar “aquela força” e iluminar o seu caminho da busca do tão sofrido diploma.

Aqui, vale ressaltar a relação da personagem Rith (típica invencionice de periferia) com a colega patricinha (Ana Clara) No início há um estranhamento e uma dose de preconceito que é superado quando fazem um trabalho acadêmico juntas. A moça abonada e arrogante conhece a periferia e vê pessoas, vê a encantadora vovó e outros da família, assim como o impacto que tem a proletária ao visitar e almoçar na casa em que ela nem sabe usar direito os talhares.

Os espaços da cidade não são mais os mesmos do tempo dos nossos pais”.

Concluem com o tema da territorialização.

O resultado é um trabalho é uma tese da realidade nua e crua, da vida como ela é.

E assim é, porque tem o rapaz esforçado honesto, trabalhador que está ali dia a dia no supermercado e é despedido quando mais precisava porque sua namorada engravidou.

Caminho fácil para o mais resistente de todos cair no crime. Mas foi sua ética, a ética passada pela vovó Esperança que o tira do enrosco.

Uma personagem também é salva por um educador de uma ONG, algo felizmente corriqueiro nos dias de hoje, reforçando a questão essencial da verossimilhança.

O conjunto de figuras que aparecem tem toda a razão de estarem no livro, inclusive aquelas da família ampliada, não de sangue, coisa eu acontece com frequência nas comunidades.

Os nomes não são fortuitos: Bonança, Éden (que não passa de um inferno), pois assim as comunidades e as pessoas tentam se reforçar. Seja assim, como com sua Associação de Moradores, cujo presidente não se corrompe.

O traficante que é o foco principal, Arranque, desta comunidade do Éden, é filho de uma conhecida da Vovó. E este jovem depois de perder a mãe tem a “sua” trajetória e se torna um monstro da banalidade do mal, mas ao final o autor acaba mostrando um ser humano como tantos outros, o que me fez lembrar a tese de Hannah Arendt sobre a Banalidade do Mal. Nem ela nem Dornelles inocentam seus criminosos.

Está dado o primeiro passo de Renato Dornelles na ficção, abrindo caminho para o sucesso que sempre teve no jornalismo e nas suas pesquisas.

 

 

 

Adeli Sell, professor e escritor